20 de mai de 2010

Entrevista Exclusiva com Sandro Santa Bárbara, candidato a Governador pelo PCB.



1: Sandro, fale um pouco sobre sua trajetória política.

Eu sou professor de ciência política. Primeiramente iniciei minha atividade política no movimento estudantil na faculdade FFCH . No inicio de minha graduação em 1993 eu não tinha vinculo com nenhuma organização partidária, a aproximação com o PT se deu em 1996, Oficialmente eu só me filiei ao PT em 1999, e fiquei no PT até 2006. Nesse período eu acabei a graduação em 1998, ingressei no mestrado em 1999 de onde saí em 2001, e nesse período de 2001 a 2007 eu continuei a lecionar e a pesquisar, fui professor de algumas universidades particulares, fui professor substituto da UFBA entre 2001 e 2003, hoje sou substituto na UNEB e leciono em uma faculdade particular em Feira de Santana. Em 2007 ingressei no doutorado da PUC em SP, essa é minha trajetória acadêmica.

A trajetória política da qual eu falei um pouco, se da de maneira consciente aos 16 anos, e a partir daí participei de alguns eventos e essa consciência foi se desenvolvendo. Evidentemente que minha trajetória no PT foi muito importante para compreender o que significava os bastidores da política interna de um partido de esquerda, mas principalmente a relação política de um partido de esquerda como o PT com outras organizações do mesmo campo de esquerda, da direita e mais ao centro. Mas sempre, até antes de entrar no PT , eu sempre tive uma relação muito próxima com o PCB.

2: Como está o relacionamento político do PCB com outros partidos de esquerda no Brasil e no mundo?

No mundo eu tenho recebido muitas mensagens exitosas quanto ao que podemos chamar de reorganização da esquerda mundial, mas dentro de um arco de alianças que produzam uma frente de esquerda anti-imperialista e anti-capitalista. Procuramos manter com eles laços fraternos de solidariedade militante sobre a base do internacionalismo proletário. No ultimo congresso que realizamos em Outubro, contamos com a presença de delegações de 21 delegações estrangeiras e recebemos saudações de outros dezoito partidos comunistas e movimentos de libertação nacional.

No Brasil desde 2006, nós conseguimos concretizar, ainda que com alguns sacrifícios institucionais e estruturais, a frente de esquerda socialista com o PSTU e com o PSOL, e de lá para cá, temos percebido que não conseguimos levar adiante algumas das metas objetivas, que deveriam conduzir a frente para além das questões institucionais.

3:Na Bahia o PCB terá candidato ao Senado ou a câmara dos deputados?

Nós estamos trabalhando ainda esta possibilidade, estamos querendo concretizá-la assim como torná-la viável, mas o partido caminha na direção de colocar candidatos em todos os pleitos: deputados, senadores e governador. Evidentemente que não descartamos ainda o contato com os companheiros do PSOL e do PSTU.

4:Ainda existe uma possibilidade de Aliança entre o PCB e os demais partidos que não fazem parte do Governo Lula e Wagner.

Sim existe a possibilidade de aliança com os companheiros, porque o que foi traçado em 2006, era a formação de uma frente de esquerda socialista, como entendemos que a frente de esquerda continua a existir, mas precisa ser repactuada, porque entendemos que agora uma vez que o nosso País está em um estagio de desenvolvimento do capitalismo, que está no centro do cenário internacional, da economia internacional, que o Brasil faz parte do G20 , não mais na condição de um pais que vai ouvir mas que será ouvido, que delibera, então Brasil faz parte do cenário da economia mundial como um agente ativo. Então entendemos que nossa economia está num estagio de desenvolvimento superior do capitalismo, e deste modo entendemos também que a transição socialista, nesta fase histórica que estamos vivendo, pode ser postulada no âmbito de uma estratégia revolucionária.

5:Qual a sua avaliação do Governo Wagner?

A vitoria do PT em 2006 foi uma vitória que animou toda a esquerda baiana. Depois de 16 anos a contar do carlismo, mas muito mais de 16 anos, no mínimo décadas, no Maximo séculos de total governo das elites baianas,oprimindo, torturando, prendendo, exilando. Mas, vitória de Wagner representou no primeiro momento, que era e ainda é possível derrotar as mesmas forças conservadoras de sempre, e que infelizmente dominaram a historia política da Bahia. Então naquele primeiro instante a vitoria foi maravilhosa, mas no segundo momento quem participava da política mais ativamente percebeu que o governo Wagner uma vez empossado, teria que fazer alianças em nome da governabilidade. O PT em nome da governabilidade, através dos seus parlamentares na assembléia legislativa, teve que se aproximar de forças políticas tidas como conservadoras em nosso estado. A bem da verdade aproximação foi realizada para o governo poder executar seu programa apresentado durante a campanha de 2006. Então nós vemos assim, esse governo poderia realizar muito mais do que se propôs, mas infelizmente ficou a reboque das alianças no executivo e legislativo, como a atual formação da chapa. O governo Wagner contém pontos exitosos. Mas existem também pontos necessários. Que não foram contemplados. Que não contemplaram, com a adequada seriedade as demandas dos pobres, trabalhadores precarizados, etc, etc,

6: Qual a sua avaliação do governo Lula?

A avaliação é um pouco mais complicada porque não falamos de um estado que pertence a um país. Falamos de um país, não só de grande tamanho territorial, mas também de grande importância econômica para a América Latina e, estrategicamente, para o mundo. Em particular, nesse momento da economia e da política internacionais, onde os Estados Unidos, se não perdem o poder militar, mas, gradativamente, tem o seu poder econômico diluído. Em 2002, a eleição de Lula representa esse momento. Depois de oito anos de desgaste político, econômico e moral do governo FHC. Mas à medida que o governo começa a tomar conta da situação, tem que fazer o mesmo pacto da governabilidade. Ao se aproximar de outras forças como o PTB, em certo sentido do antigo PFL (o agora Partido Democrata), entre outras organizações mais à direita, faz conciliações necessárias à implantação do seu programa.

7: O que o PCB acha da mídia conservadora?

7:Estamos, no essencial, de acordo com a caracterização que você propõe. Conservadora, reacionária, racista e organicamente comprometida com os interesses do grande capital. Um bom exemplo de sua atuação pode ser encontrado no comentário de Boris Casoy a respeito dos garis de São Paulo. Ele se manifestou de maneira tão espontânea que fica difícil acreditar em suas desculpas posteriores, no canal de televisão o qual ele é apresentador. Acho que uma coisa fundamental para as organizações de esquerda e movimentos sociais e populares é que desenvolvam seus próprios instrumentos informativos para disputar com a grande imprensa burguesa a hegemonia no processo de construção do imaginário das pessoas. Nós precisamos disputar a direção espiritual da sociedade, participando intensamente do processo de formação da opinião pública. Mas parece que as forças hegemônicas no terreno das esquerdas renunciaram ao cumprimento desta tarefa.

8: O que você pretende realizar no primeiro ano de governo caso seja eleito?

8: No primeiro ano de governo pretendemos implantar os conselhos populares. Nós pretendemos governar com o povo da Bahia. E quem é esse povo da Bahia? A juventude negra, os trabalhadores da cidade e do campo, os jovens excluídos de toda a sorte, os trabalhadores em situação de desemprego ou que são trabalhadores qualificados, mas não se encontram à disposição do que a mídia chama de “mercado de trabalho”. Como se o mercado definisse aqueles que deveriam ocupá-lo, quando na verdade são os seres humanos que definem políticas de emprego, políticas educacionais. Então nossa primeira intenção é a implantação dos conselhos populares, a partir dos quais, governaremos o estado com o povo. Evidentemente, não somos ingênuos em desprezar as forças hegemônicas que hoje, e sempre, existiram na Bahia. Ao realizar essa tarefa, vamos mexer com essas forças, então, evidentemente, que os canais de comunicação serão criados. Mas entendo que os canais de comunicação não são os canais para a conciliação com essas forças. Estamos em uma sociedade cuja direção política encontra-se em disputa, e nada melhor do que estar aliado ao povo que sempre esteve excluído das questões da economia e da política baiana.

9: A segurança publica é um tema que estará presente em todos os debates, como o PCB avalia o quadro atual no estado?.

O quadro atual, infelizmente, não se modificou muito, embora no primeiro ano de governo Wagner tenha-se ensaiado uma mudança de postura nessa questão de segurança. A ênfase deve se deslocar das ações de caráter repressivo para as ações de caráter preventivo. Tais ações incluem todo um conjunto de iniciativas sociais como educação em tempo integral nas escolas, política de qualificação profissional e de emprego, política de recuperação de drogados, policiamento comunitário e investimentos públicos em urbanização, saneamento, educação e recreação na periferia Nós entendemos que a segurança tem que passar primeiramente pela melhoria na qualidade de ensino público. Nós temos que resgatar a educação pública de qualidade em nosso estado. Melhorar a qualidade de ensino, mas melhorando também as condições de trabalho ofertadas aos professores e professoras.

10: Educação e Saúde também são temas recorrentes nas eleições baianas: quais são as suas propostas para estas áreas?

A Bahia tem a felicidade de sediar em seu território Universidades como a própria UFBA, agora a Federal do Recôncavo, mas, principalmente, as estaduais. Nesse sentido, o trabalho governamental será o de agir, necessariamente, na direção desses segmentos acadêmicos, dessa pesquisa que já existe, e que nos indique um caminho, embora o partido já o possua. Quando eu falo para você que vamos governar com os conselhos populares a intenção é governar com conselhos que atuem também na educação e na saúde. Principalmente na área de saúde. Em particular o que acontece no SUS, para nós, é algo extremamente complicado então nos pretendemos, não só reformatar, mas romper com as estruturas na área da saúde que privilegiam sempre os mais ricos e incluídos, economicamente falando. É necesssário, sobretudo, ouvir os movimentos de professores, estudantes e trabalhadores da educação em geral. Discutir com as associações de pais de alunos e com os especialistas em educação popular.

11: O secretario de cultura Marcio Meirelles enfrenta uma oposição serrada por parte de alguns artistas que recebiam uma série de incentivos dos governos anteriores. Como você avalia a gestão da secretaria de cultura no governo Wagner? Quais suas propostas para área cultural do estado?

Essa área cultural tem desprezado, não só na gestão do Meirelles como nas anteriores, a grande criatividade que a nossa juventude possui. Voltando a questão da presença da juventude nos bairros periféricos da nossa cidade de Salvador e do interior. Quando você percebe que nós temos a condição de produzir atores como o Lázaro Ramos e outros que estão espalhados pelo Brasil inteiro e são ilustres desconhecidos, vemos o grande erro que cometemos no que concerne à produção da chamada cultura popular. O PCB nesse sentido é muito coerente. É necessário se aproximar o mais que pudermos do poder popular. A política cultural deverá ser formulada e implementada a partir do diálogo com a comunidade artística e os representantes do mundo da cultura. Nós entendemos que a política cultural não deve ser orientada apenas pelas imposições do mercado, mas deve privilegiar as manifestações da cultura popular em toda a sua diversidade.

12: Para o PCB o carlismo morreu?

12: É um assunto complexo, pois nós temos uma cultura política essencialmente personalista. Se você analisa a história da Bahia anterior ao surgimento de Antonio Carlos Magalhães você encontrará figuras como Antonio Balbino, Lauro de Freitas, J. J. SEABRA, e Juraci Magalhães. Uma cultura política personalista. Se formos por essa direção, vamos afirmar positivamente que sim, o carlismo morreu. Mas se entendermos um outro caminho, de que a cultura personalista permanece mesmo após o seu chefe maior ter morrido, nós dizemos que não, que existe uma estrutura ainda montada. Afinal de contas todo o império midiático está de pé. A rede Bahia, através da TV Bahia, da sua Rádio, das suas outras formações midiáticas no interior e em outros locais do nosso estado. O formato é ainda passado como se existisse o carlismo. È uma resposta um tanto complexa de ser dada, mas eu diria a você que as conseqüências políticas gestadas a partir do carlismo ainda são fortes. Tanto são fortes que as formações partidárias á direita sofrem um dilema entre propugnar uma política em relação ao governo Wagner como fizeram, ou se fincam seus alicerces no adversário principal à direita que é o Geddel Vieira Lima, ou se traçam um novo poder. Eu entendo que essas forças denominadas de carlistas vivem uma espécie de estagnação política, da qual poderá resultar seu desaparecimento político ou uma posterior reaglutinação. .

13: Se o candidato do PT o atual governador Jaques Wagner for eleito o PCB irá para a oposição ou dialogará com o governo?

O PCB mantém em relação ao governo Wagner uma postura de independência crítica. Não integra o seu (do governo Wagner) campo de alianças e possui, inversamente, seu próprio programa e alianças. Como o PCB faz política em torno de idéias e propostas e não em torno de pessoas, pode vir a apoiar e elogiar iniciativas adotadas pelo governo Wagner que estejam de acordo com as necessidades populares. Porém, a julgar pelo que foi realizado no primeiro governo e pouco provável que isto venha a ocorrer.

14: O PCB não possui representação Parlamentar em nenhuma esfera, se vc for eleito como irá governar nestas condições?

14: Acho que mais ou menos na primeira ou segunda questão eu respondi. Será uma gestão desafiadora, muito complicada e delicada. Não vamos enganar ninguém. Não será fácil governar numa situação muito adversa. Sabemos que teremos, contra o nosso partido e nossa postura, principalmente a mídia, seja ela ligada ou simpática ao carlismo, seja de fora do estado inclusive. Vão chover acusações espúrias, equivocadas de que vamos implantar o comunismo, que faremos aquelas coisas absurdas que nunca fizemos. Mas o partido é, além de coerente, muito consciente no sentido de que tem que governar com os setores populares organizados. Tem que governar com este poder popular em construção. É necessário entender que o partido vislumbra a possibilidade de construção de um bloco contra-hegemônico. Claro que esse nosso objetivo á a médio e a longo prazo. Nesse primeiro momento, uma vez eleito governador da Bahia, o PCB caminhará com a formação dos conselhos populares a fim de fazermos frente à sistemática oposição que nos será feita.

15:. Para finalizar, deixe uma mensagem para todos os eleitores da esquerda baiana.

15: Até o presente instante político do nosso estado, sempre fomos governados por forças reacionárias, conservadoras e que jamais atenderam as demandas que do povo, passando pela educação, pela saúde, pela segurança, emprego, lazer, cultura. Esse resquício de séculos, desde que a Bahia era colônia, se tornou, depois, parte do nosso país. Ainda agora, de cem anos para cá, essas questões se “agudizaram”. O recado para a população que pretende votar num partido de esquerda é que acredite no PCB, que acredite no Partidão. Um partido que, dia 25 de março de 2010, completou 88 anos de existência e tem toda sua tradição marcada por acertos e equívocos. Equívocos que o partido já assumiu interna e publicamente, pretendendo a partir dessa nova postura, assumir a condição de uma alternativa revolucionária, mas que se entende não como a única opção à esquerda. Outras organizações, como o Psol e PSTU, podem estar nos acompanhando nesse projeto de alternativa revolucionária. Nos colocamos como um partido da verdadeira esperança. Um partido do século XXI. O partidão é um partido não só de teoria, mas um partido de ação política. Que está tentando compreender a dinâmica do capitalismo hoje para tentar, consequentemente, compreender a melhor forma de superar esse capitalismo. Evidentemente, que o PCB entende que não superará o capitalismo sozinho. Isso só poderá acontecer com a ação das grandes massas. O partido terá muito orgulho e honra em fazer parte de uma frente que supere e destrua o capitalismo. Então à aqueles que entendem da mesma forma que entendemos, podem creditar seu voto na urna, que estaremos fazendo de uma forma muito coerente e programática.



Transcrição: Gabriel Vianna.

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